domingo, 1 de fevereiro de 2009

Boas leituras

Segundo ano na universidade, aula de Pedagogia; a professora solicita a leitura de um pequeno livro de autoria do Paulo Freire: Pedagogia da Autonomia. Sou péssima para lembrar nomes; de pessoas, filmes, músicas e também de livros. Mas registrei este inclusive junto ao sentimento que ele despertou. O meu desejo era sair distribuindo aquele pequeno e precioso livrinho para todos os professores, inclusive para todos os que me deram aulas nos anos anteriores à faculdade. Como minha professora de Pedagogia havia falado, é realmente uma leitura de cabeceira.

No início de 2007, um amigo que agora é meu namorado, me falou a respeito de outro livrinho. Pequeno como o do Paulo Freire e tão precioso quanto: “O Discípulo” de Juan Carlos Ortiz. O exemplar do meu amigo estava velho e até o presenteei com um novo, mas acabei não lendo. Agora estou lendo-o e acabo de ver que sua primeira edição foi em 1980, é mais velho que eu! Mas a questão é que ele despertou em mim um sentimento semelhante ao outro livro. Uma vontade de proporcionar esta leitura a todos aqueles que se dizem crentes, evangélicos ou cristãos seguidores de qualquer denominação. A propósito, eu sou cristã e não sou muitas outras coisas.

Como disse o Dr. W. Stanley Mooneyham: “Juan Carlos Ortiz é um escritor sincero e franco que não faz uso de meias palavras” (p.09). Em capítulos curtos e muito objetivos Ortiz nos leva a pensar sobre uma vida “cristã” que aprendemos e não questionamos, sobre o marasmo espiritual que muitos vivem, sobre a absurda inversão de valores dentro da igreja.


“O que é um discípulo? Discípulo é aquele que segue a Jesus
Cristo. Ser cristão não significa automaticamente ser discípulo, embora os
cristãos sejam membros do Reino de Deus. Seguir a Cristo implica em aceitá-lo
como Senhor; significa servi-lo como um escravo. Também significa amar e
louvar.” (p.11)

A palavra Senhor no nosso contexto tem um sentido completamente diferente da época em que Jesus esteve aqui. Segundo Ortiz:


“O césar romano era o Senhor. Em verdade, quando os
funcionários públicos ou soldados se encontravam na rua, tinham que saudar uns
aos outros com as palavras: 'César é o Senhor!' e a resposta invariavelmente
era: 'Sim; César é o Senhor!'


Por isso, os cristãos tiveram que enfrentar um
grande problema. Sempre que alguém os saudava com estas palavras: 'César é o
Senhor!', eles respondiam: 'Não; Jesus Cristo é o Senhor.' Em pouco tempo esta
prática começou a causar-lhes dificuldades.” (p.13)

Hoje falamos do “Senhor” muitas vezes como se estivéssemos falando do Senhor João ou do Senhor Roberto ou do Senhor Mário... Esquecemos que O Senhor é o rei, é quem nos deu a vida e nos suporta todos os dias, é a autoridade máxima. Somos escravos deste Senhor e de nenhum outro.


“Os evangelistas dizem: ‘Jesus está batendo a porta do seu
coração. Por favor, abram a porta! Não vêem que ele está lá fora, de pé, ao frio
e ao vento? Coitado de Jesus! Abram a porta para ele. ’ Não é de se espantar que
o ouvinte pense que está fazendo um grande favor ao Senhor, ao tornar-se
cristão.

Costumamos dizer às pessoas: ‘Se vocês aceitarem a Jesus, vocês
terão alegria, paz, saúde, prosperidade... Se derem a Jesus cem cruzeiros,
receberão de volta duzentos cruzeiros.’ Estamos sempre apelando para os
interesses humanos. Jesus é o Salvador, a cura para nosso corpo, é o Rei que
virá para mim. Este mim é o centro de nosso evangelho.

Nossas reuniões são centralizadas no homem. O arranjo do mobiliário, as cadeiras, o púlpito – tudo aponta para o homem. (...) ‘E o culto não deve passar de uma hora para que o povo não se fadigue. ’ Onde é que está Jesus, o Senhor?

A letra de nossos hinos segue na mesma linha. ‘Conta as bênçãos!’ ‘Cristo é meu!’ ‘Estou feliz com Jesus!’ Nossas orações também se centralizam no homem. (...) Esta
petição nunca foi por amor de Cristo. É por amor a nós! É certo que muitas vezes
empregamos as palavras corretas, mas com a atitude errada. Enganamos a nós
mesmos.” (p.14 e 15)


No quinto evangelho, o Evangelho Segundo os Santos Evangélicos, há mandamentos que diferentemente dos outros evangelhos, são optativos. Sim,


“Você faz se quiser, mas se não quiser, está tudo certo
também.
Mas não é assim o evangelho do Reino.” (p.19)

Eu gostaria de citar muitas das reflexões do autor, mas melhor será se eu conseguir despertar em outros o desejo de ler o livro inteiro, e mais importante do que apenas ler, refletir e mudar no que for preciso para se tornar um discípulo melhor.
Para finalizar, transcrevo alguns trechos sobre louvor.

“O que é louvar? Qualquer dicionário nos dirá que louvar é
reconhecer as virtudes de alguém.


Louvar não é apenas repetir a palavra
louvor. Se eu estou num culto, e ouço alguém dizer um belíssimo solo, eu não me
dirijo a esta pessoa e fico a repetir: ‘Eu o louvo! Eu o louvo! Eu o louvo!’
Isto não é louvar. Tenho que louvá-lo por algo que ele fez. (...)


Nossas palavras são como caixas vazias. (...)
Nós chegamos à igreja puxando um
carrinho de mão cheio de caixas belamente embaladas e atadas com lindas fitas,
ostentando cartões que trazem os dizeres: ‘Glória a Deus!’ ‘Aleluia!’ ‘Glória a
Deus!’ e ‘Amém!’
E os pastores dizem: ‘Que gente maravilhosa! Eles trazem
tanto louvor à igreja!’
E todas as caixas são levadas para o altar.
Mas quando Deus as abre, não encontrará nada dentro.” (p.75 e 76)