segunda-feira, 21 de maio de 2012

Um coração sem rugas



Há uma propaganda da margarina Becel que diz que se as pessoas pudessem ver seus corações cuidariam melhor deles. Eu não tenho a menor dúvida que isso aconteceria, não primordialmente por uma questão de saúde, mas de estética. O ser humano anda tão preocupado com a aparência, com o que os outros podem ver, que características realmente importantes da vida parecem irrelevantes. Se as pessoas cuidassem dos seus corações como cuidam da estética, o mundo certamente seria melhor.

Algum tempo atrás o Fantástico apresentou uma reportagem sobre os perigos das escovas progressivas. Marroquina, indiana, de chocolate... são dezenas de nomes para os tratamentos de alisamento de cabelos em menor ou maior grau. Mas a pesquisa mostrou que produtos estão sendo adulterados e a fórmula final é extremamente cancerígena, podendo causar a doença a longo prazo. Infelizmente, para muitas mulheres, o que importa é estar bonita e quase nada mais. Só conhece o vale escuro que é o câncer quem já passou por ele ou muito perto de quem esteve lá. Não saber dos perigos que um tratamento estético pode causar e se submeter aos riscos é preocupante, mas saber dos riscos e mesmo assim se submeter é tolice.

Com o passar dos anos começam a aparecer rugas, estrias, celulites, pintas, uma gordurinha aqui e outra ali. O corpo e a disposição já não são mais os mesmos, assim como a mente e o coração também não. Relacionamentos são construídos e destruídos, alguns se mantém aos trancos e barrancos, e felizmente há os que fazem a vida valer a pena. Mas ao longo do caminho de muitos, mágoas, decepções, coisas mal resolvidas vão sendo guardadas em um cantinho escuro do coração. E assim como existem as clínicas estéticas para cuidar do corpo, existem os tratamentos psicológicos e espirituais para cuidar do coração, do espírito e da mente. Mas a proporção me parece tão diferente... talvez seja impressão. Afinal, não podemos ver os corações uns dos outros. Mas tenho a nítida impressão que uma quantidade considerável de pessoas está infinitamente mais preocupada em cuidar das rugas das suas faces do que das rugas dos seus corações.


Um coração leve, claro e limpo
bate tranquilo dentro de um corpo com alta auto estima,
com vontade de se cuidar em todos os sentidos
espirituais, emocionais e estéticos.
Um corpo saudável
contribui para uma vida saudável
a qual contribui para um mundo melhor.
Menos doenças, menos violência, menos tristeza
Parece utopia.
Mas não acredito que seja.

domingo, 6 de maio de 2012

Infelicidade


“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”
Carlos Drummond de Andrade

Por mais que a gente goste do nosso trabalho, sexta feira é sempre um bom dia não é? Pra quem trabalha de segunda à sexta, este último dia de labuta precede dois dias de descanso; dois dias nos quais podemos fazer o que quisermos com nosso tempo. Pra quem não gosta do que faz, de onde ou com quem trabalha, nem se fala... a sexta feira demora a chegar e é festejada!

Na última sexta feira, ao encontrar um colega de trabalho – um estagiário, perguntei se estava tudo bem. Ele respondeu: Vai indo ... Como assim vai indo? Não está tudo bem? E ele, com um sorriso amarelo no rosto, respondeu: Há! É que hoje é sexta . Não compreendendo, insisti em entender... e pra minha surpresa e indignação ele respondeu: Hoje é sexta, mas segunda feira já tenho que trabalhar novamente. Não era possível! Ele não estava brincando! Ele realmente estava infeliz porque na segunda feira teria que trabalhar novamente! Não vou entrar na questão se o trabalho dele é a melhor ou pior coisa do mundo, mas no fato dele sequer conseguir encontrar uma saída pra se sentir bem – seja no ambiente profissional ou fora dele. Isso é assustador!

Essa rápida conversa me fez lembrar outra que tive com um colega – neste caso alguém mais velho, que ao voltar de uma licença especial de três meses, comentou que não havia aproveitado muito porque sua enteada de dez anos não o deixava descansar. Que era melhor estar no trabalho que em casa. Neste caso é legal constatar que a rotina profissional não é tão horrível como muitos pintam; mas é triste constatar que estar com a família, podendo ter um tempo de qualidade com ela, seja pior que estar no trabalho.

Parece que o conceito de felicidade está tão deturpado que é necessário acontecer algo extraordinário para que então alguém possa se dizer feliz, se dar o prazer de se sentir feliz, ou no mínimo estar “de bem com a vida”. É mais ou menos assim: quando eu ganhar na mega sena serei muito feliz! O problema é que a chance de você ganhar e ficar extraordinariamente rico é mínima, e se você não prestar atenção nas pequenas coisas boas da vida, viverá encontrando pequenas coisas ruins pelo caminho. Com as pequenas pedras que vai encontrando, é muito fácil construir uma montanha de infelicidade, mesmo sem ter um motivo extraordinário para isso.

“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!”
Mário Quintana